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  • Livrarias à beira da extinção?

    É impressionante como no mês de abril temos várias comemorações alusivas à leitura. No dia 2 tivemos o Dia Internacional do Livro Infantil, no dia 18 comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil e no dia 23, foi dia de celebrar o Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral. Do papiro utilizado para a escrita na Antiguidade à tela dos aparelhos eletrônicos, o percurso do livro ao longo da História vem alicerçando a importância desse produto cultural como instrumento de difusão de conhecimento, além de fonte inesgotável de entretenimento, visto a humanidade ter experimentado nas páginas de romances, contos, crônicas, textos teatrais, coletâneas de poemas, entre outros, inúmeras emoções desencadeadas pela literatura, que tem o livro como principal suporte. O escritor, por sua vez, figura imprescindível para a existência do livro, não poderia ser deixado de lado nessa data, uma vez que a celebração do dia do livro está diretamente associada ao reconhecimento dos direitos autorais.

    Tendo, portanto, como principais objetivos o reconhecimento e a exaltação da importância do livro e do escritor para o desenvolvimento intelectual da humanidade, o Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral é, sem dúvida alguma, a materialização física e simbólica da criatividade humana pois, através dele, compartilha-se conhecimentos sistematizados por todas as ciências — exatas, biológicas e humanas —, impulsionando o desenvolvimento da humanidade em múltiplos aspectos: econômicos, científicos, sociais, políticos, sociológicos, históricos e antropológicos.

    Embora a existência de um dia dedicado à celebração do livro e do autor também venha, ano após ano, incentivando o debate acerca das incertezas advindas da popularização de novos suportes tecnológicos para a difusão de conhecimento e sobre os direitos do autor na era digital, colocando-nos frente a frente com situações que despertam a nossa atenção em um mundo cada vez mais carente de humanização, não é de se estranhar que a chegada de formatos digitais tenha aflorado discussões acerca da sobrevivência do “livro de papel” propriamente dito. Razão que nos leva a direcionar para o futuro incerto das livrarias, que é o título deste post. 

    Vocês sabiam que a livraria mais famosa do mundo fica no coração de Paris? Segundo Taísa Szabatura, em seu artigo publicado na Revista IstoÉ em 13/11/2020, a Shakespeare and Company fez no início do mês da publicação, há quase 3 anos, um pedido inusitado aos seus clientes, pedindo para que comprassem livros pois, caso contrário, teriam que fechar as portas. A mensagem, enviada por Sylvia Whitman, proprietária da famosa livraria, pegou muita gente de calça curta por não ser um simples golpe de marketing, mas por expor a nua e crua realidade que livrarias do mundo todo vem enfrentando ao longo dos tempos. 

    Se antes da pandemia o setor já estava em crise, com o “lockdown”, até os endereços mais charmosos da literatura anunciaram o fechamento. A pergunta que se fez naquela ocasião foi: livrarias fazem parte do “serviço essencial” ao cidadão durante uma crise sanitária? Anne Hidalgo, então prefeita de Paris, disse que sim e foi mais longe, pedindo à população para que não comprasse livros na Amazon e valorizasse as livrarias alternativas da cidade. Apesar da atenção recebida naquele período, Taísa acredita que ainda é cedo para cravar um final feliz ao pequeno, porém poderoso endereço às margens do Sena, em frente à Notre-Dame, ressaltando que “a livraria de língua inglesa que leva o nome de William Shakespeare é tão relevante quanto o museu do Louvre ou a Torre Eiffel”. Para se ter uma ideia da sua imponência, a livraria faz parte da vida de escritores renomados há mais de um século, motivo pelo qual o pedido de socorro causou enorme repercussão entre os bibliófilos. Fundada em 1919, a tradicional Shakespeare and Company conquistou o coração de muitos escritores ao amparar, em 1922, o lançamento de “Ulysses”, obra máxima de James Joyce, tornando-se, desde então, local de peregrinação entre os amantes da literatura. 

    Até mesmo em Nova York, conforme destaca Taísa, quem está com o futuro ameaçado é a Strand Book Store, fundada em 1927 e um cartão postal da cidade. Assim como a Shakespeare, a Strand que é uma das maiores livrarias de livros novos e usados do planeta, corre o risco de sumir do mapa, pois mesmo tendo um “espaço” que define a clássica imagem do negócio livreiro, com iluminação controlada, chão de madeira e “ares” de biblioteca, sua clientela diminuiu drasticamente.

    De acordo com o presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Bernardo Gurbanov, a crise do setor é generalizada e se manifesta em vários países, sendo um dos principais motivos a compra de livros, tanto digitais como impresso, pela internet, que vem substituindo o comércio presencial, fato este que infelizmente culminou no fechamento de várias lojas da Livraria Cultura, cuja falência foi decretada recentemente, causando burburinho no mercado editorial. O diretor comercial da Editora Planeta, Gerson Ramos, disse ao PublishNews que a renomada livraria marcou a vida de milhares de leitores e profissionais do livro, enfatizando que “um dos ônus de ser profissional no mercado de livros é o de precisar separar a emoção e a paixão que temos pelas obras dos autores e das livrarias, para conseguir manter foco na obtenção dos resultados necessários para mantermos nossas empresas saudáveis”. Bruno Zolotar, diretor comercial e de marketing da Editora Rocco, também deu o seu parecer, citando que a Cultura fez história no mercado brasileiro com ótimos livreiros e um padrão que era modelo para outras redes, lamentando que o mercado tenha perdido uma rede como essa e apontando que o declínio vem desde 2018 e que esse desfecho não pegou ninguém de surpresa, pois o mercado, como um todo, assistiu a sua longa agonia.

    No entanto, o presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Vitor Tavares, comentou que “as livrarias são fundamentais para um mercado saudável e sustentável e que a diversidade de pontos de venda contribui para um mercado mais estabilizado e promove o acesso ao livro”, anunciando que “felizmente, podemos constatar, nos últimos meses, o surgimento de novas livrarias no país e expansão das redes de forma renovada e com foco no leitor e que o interesse pela leitura continua vivo e isso é perceptível pela grande quantidade de conteúdos sobre livros nas redes sociais”. Compartilhando desta visão otimista, Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL) esclarece que “aqueles que amam o livro lamentam toda e qualquer perda ocorrida no mundo das livrarias”, argumentando que “ver outras livrarias prosperando, abrindo novas filiais, em novos formatos, nos alegra”, ao observar a retomada do hábito de leitura da população brasileira, após os últimos três anos, em meio a um cenário econômico complexo devido à pandemia. Ele, inclusive, analisou que “ao longo de 2022, esse comportamento foi mantido e influenciou o crescimento do mercado e a abertura de novas livrarias, superando o saldo de livrarias fechadas”.

    Deste modo, muitas livrarias estão buscando a criatividade para não terem que fechar as portas. Em Paris, o pedido de socorro teve efeito imediato e a Shakespeare and Company foi obrigada a suspender temporariamente as vendas. A procura pelo seu clube de assinaturas, chamado “Amigos da Shakespeare and Company”, no qual o leitor recebe, por um preço fixo, livros exclusivos, carimbados e cuidadosamente embalados, chamou a atenção do público leitor que tem a comodidade de receber o livro em casa, de qualquer lugar do mundo. Da mesma forma, a Strand manda um alerta: apoie o nosso negócio e compre um “gift card”. Como podemos verificar, apoiar ações que fortaleçam as livrarias, sejam elas pequenas, médias ou grandes, é o caminho para que, em médio prazo, possamos recuperar os espaços perdidos desde 2018. Até mesmo a Editora Todavia, em nota enviada ao PublishNews, alega que quando uma livraria deixa de existir é um estrago brutal na paisagem da cidade e no cenário cultural do país inteiro, torcendo para que a nossa indústria encontre nesse revés, motivação para criar e manter caminhos sustentáveis para chegar ao leitor. Afinal, percebe-se uma mudança cultural que mostra a queda do prestígio do livro como objeto de consumo, pois não temos como negar que a praticidade da compra remota e os livros digitais tornaram as visitas às livrarias cada vez mais eventuais e, assim, muitos clientes simplesmente desapareceram.

    “Criei esta livraria como um homem escreveria um romance, construindo cada cômodo como um capítulo, e gosto que as pessoas abram a porta do jeito que abrem um livro, um livro que leva a um mundo mágico em sua imaginação.” George Whitman – fundador da Shakespeare and Company

    ~ Bia ~ 

  • Libras é língua ou linguagem?

    Fonte: Filhos especiais, pais abençoados

    Sendo hoje, 24 de abril, o Dia Nacional da Libras, na condição de professora de Libras, acho por bem esclarecer que, ao contrário do que muitos dizem (até mesmo porque eu já vi vários apresentadores famosos dos telejornais referir-se à Libras como linguagem de sinais), que a Libras – Língua Brasileira de Sinais, como o próprio nome diz, não é linguagem. É língua!!!

    Para compreendermos melhor a diferença entre língua e linguagem que confunde mesmo a cabeça de muita gente, a linguagem é a capacidade de se comunicar através da linguagem oral, corporal e/ou visual, de forma a transmitir uma mensagem para outra pessoa. Temos também a linguagem digital que usa combinações numéricas para criar sites, jogos e aplicativos que permitem a comunicação via computadores, celulares e qualquer outro meio eletrônico. Por outro lado, a língua é um conjunto organizado de sons e/ou sinais que um determinado grupo usa para se comunicar, com um sistema que possui estrutura e regras próprias. Um bom exemplo é imaginarmos que estamos em um restaurante na França e não sabemos falar o idioma francês. Ao utilizarmos a linguagem corporal e/ou visual, conseguimos mostrar para o garçom o prato que desejamos pedir, apesar de não sermos capazes de fazer o pedido na língua dele e de não sabermos pronunciar o nome do prato. Será que deu para perceber a diferença entre língua e linguagem?

    Agora que já sabemos que Libras é uma língua, vamos falar um pouquinho sobre esse idioma que é utilizado pela comunidade surda brasileira. Como nas diversas línguas naturais e humanas existentes, a Libras também é composta pelos níveis linguísticos: o fonológico, o morfológico, o sintático e o semântico. Ao contrário das línguas orais-auditivas que fazem o uso das palavras, nas línguas de sinais a comunicação está diretamente ligada a movimentos e expressões faciais, ou seja, a diferença está na modalidade de articulação, que no caso da Libras é a visual-espacial, não envolvendo apenas o conhecimento dos sinais, mas o domínio de sua gramática para combinar as frases, no sentido de estabelecer a comunicação de forma correta, evitando-se assim, o uso do “português sinalizado”. Muita gente pensa que a Libras é só um conjunto de sinais como simples gestos ou mímicas, mas ela vai muito além disso!!!

    Para vocês terem uma ideia, os sinais surgem da combinação de configurações de mão, movimentos e de pontos de articulação – locais no espaço ou no corpo onde os sinais são feitos – e de expressões faciais e corporais que transmitem sentimentos, que compõem as unidades básicas dessa língua. Um ponto importante que devemos destacar é que cada palavra possui seu próprio sinal e somente quando não for possível identificá-lo como, por exemplo, nomes próprios, recorremos à datilologia, isto é, a soletração por meio do alfabeto em Libras. Deste modo, a língua de sinais se apresenta como um sistema de transmissão de ideias e fatos, possibilitando o desenvolvimento linguístico, social e intelectual, favorecendo o acesso à comunicação mais adequada aos surdos e, consequentemente, ao conhecimento cultural-científico, bem como a integração no grupo social ao qual pertence.

    Posto isso, vou contar alguns fatos interessantes sobre a Libras. Para começar, vocês sabiam que ela não é uma língua universal? Isso mesmo! Assim como existem várias línguas faladas no mundo, existem mais de 200 línguas de sinais no mundo e cada uma tem suas próprias normas, havendo até mesmo alguns países, como o Canadá, que mais de uma língua de sinais é utilizada. Lá se usa a Língua de Sinais Americana (American Sign Language) e a Língua de Sinais de Quebec (Langue des signes québécoise) justamente pelo fato do país ter tanto o inglês quanto o francês como línguas oficiais. Da mesma forma, como o idioma português, espanhol, italiano e francês se originaram da evolução do latim, línguas de sinais também têm semelhanças umas com as outras e muitas vezes compartilham a mesma origem. A própria Libras tem, por motivos históricos, forte influência da língua de sinais francesa, quando foi criada em 1857.

    Hoje em dia ela tem a sua própria identidade graças à luta sistemática e persistente da comunidade surda que fez com que a Língua Brasileira de Sinais fosse reconhecida como o meio legal de comunicação e expressão através da Lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002, razão pela qual comemoramos nesta data, o Dia Nacional da Libras. Sem dúvida, foi uma grande vitória para a comunidade surda pois o decreto garante o direito à Libras como a língua das pessoas surdas no acesso à educação, à saúde, à cultura e ao trabalho. A Lei também serviu de alicerce para uma série de políticas públicas. A partir de então, somaram-se novas conquistas, sendo que em 2003 foi aprovada a Portaria nº 3.284, que dispõe sobre a acessibilidade dos surdos dentro das universidades brasileiras. No ano seguinte, em 2004, foi ratificado o Decreto nº 5.296, o qual estabeleceu mais prerrogativas legais de acessibilidade.

    Todavia, apesar de reconhecida, a Libras só foi regulamentada em 22 de dezembro de 2005, por meio do Decreto nº 5.626, que incluiu a Libras como disciplina curricular obrigatória na formação de professores surdos, professores bilíngues, pedagogos e fonoaudiólogos. Assim, a primeira universidade a inserir o curso de graduação em Língua de Sinais Brasileira foi a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da qual, orgulhosamente, fui aluna da primeira turma. Em 2010 foi regulamentada a profissão de Tradutor/Intérprete de Libras através da Lei nº 12.319 de 1° de setembro de 2010, simbolizando mais uma grande conquista. Em 6 de julho de 2015, entrou em vigor a Lei nº 13.146, denominada Lei Brasileira da Inclusão de Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), incumbindo ao poder público, entre outras coisas, a oferta de educação bilíngue, uma vez que é dever do Poder Público garantir acesso e educação para surdos nas escolas regulares de ensino, garantindo seu aprendizado e progressão educacional. Mais recentemente, foi sancionada a Lei nº 14.191, em 2021, que insere a Educação Bilíngue de Surdos na Lei Brasileira de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, como uma modalidade de ensino independente, antes incluída como parte da educação especial.

    Como podemos observar, foi somente a partir de 24 de abril de 2002, com a Lei nº 10.436, que a Libras projetou-se nacionalmente, passando a ocupar o status de língua e reconhecida pela linguística. Para que se possa compreender a importância da Libras no desenvolvimento cognitivo da criança surda, pesquisas desenvolvidas ao longo dos anos com filhos surdos de pais surdos vêm comprovando que a aquisição precoce da língua de sinais dentro do lar, contribui de maneira mais rápida e eficaz o aprendizado do português escrito como segunda língua, se comparado com crianças surdas de pais ouvintes que tiveram acesso tardio à língua de sinais. Apesar dos meus pais não serem surdos e só ter o acesso à Libras aos 8 anos, pelo fato de ter o mais alto grau da perda auditiva (profunda), foi somente após ter assimilado a língua de sinais como a minha língua natural, que passei a compreender melhor, não só o português, mas outros idiomas como inglês, espanhol e japonês.

    Desse modo, tenho que corroborar com diversos estudos que demonstram que a língua de sinais apresenta uma organização neural semelhante à língua oral, ou seja, que ela se organiza no cérebro da mesma maneira que as línguas faladas, considerando-se que a forma de comunicação natural seja aquela em que a criança, surda ou ouvinte, se sinta mais confortável. Diante dessa premissa, a Libras vem sendo, dia após dia, direcionada como um caminho necessário para a efetiva mudança nas condições oferecidas pela escola no atendimento educacional de alunos surdos. Apesar de enfrentarmos controvérsias que perpassam a discussão nesta área, além de ambiguidades e indefinições nas propostas para o ensino do surdo, temos plena consciência que concretizá-las envolve desafios de como lidar com a inclusão da Libras nos âmbitos escolares.

    No Dia da Libras, que acima de tudo “marca a luta pela busca do reconhecimento, pela aceitação e inclusão do direito de aprender e de ensinar, de ingresso no mercado de trabalho e de acesso ao direito humano à qualidade de vida da comunidade surda”, como tão bem enaltece a jornalista Maria Clara no seu artigo “Dia da Língua Brasileira de Sinais – Libras: A luta pela inclusão social“, é sim, um dia de comemoração, mas ela também expõe que é uma data de “reflexão sobre a necessidade de ampliar e fortalecer políticas públicas de formação de professores e de difusão e disseminação da Língua Brasileira de Sinais no PaÍs”, conforme afirma a professora Sinara Pollom Zardo, da Universidade de Brasília (UnB), destacando, inclusive, que “é preciso que o Estado assegure uma educação inclusiva, com oferta do ensino bilíngue executado por profissionais qualificados e concursados em todas as escolas da rede pública”.

    Diante desta perspectiva, em que a Libras é fundamental à educação bilíngue em nosso país, sendo coincidentemente comemorado em Portugal, no dia anterior, 23 de abril, o Dia Nacional de Educação de Surdos, o diretor do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), Carlos Maciel, aponta que é preciso reforçar a defesa dos direitos das pessoas surdas às políticas públicas do Estado, à educação pública gratuita e de qualidade, por meio de uma educação livre de capacitismo e com mais inclusão e igualdade. Afinal, temos que convir que a Libras, que é língua e não é linguagem, enquanto fenômeno social, cultural e político da comunidade surda, veio para autenticar que nós, surdos, somos sujeitos de direitos, com diferenças culturais e que o primeiro artefato de manutenção desta diferença é, sem dúvida alguma, a Língua Brasileira de Sinais.

    Encerro o post com um trecho do livro “O voo da gaivota”, da escritora Emmanuelle Laborit: “Recuso-me a ser considerada excepcional ou deficiente. Não sou. Sou surda. Para mim, a língua de sinais corresponde à minha voz, meus olhos são meus ouvidos. Sinceramente nada me falta. É a sociedade que me torna excepcional…”

    Sem mais delongas… Viva o Dia Nacional da Libras!!!

    ~ Dani ~

  • Ler dá asas à imaginação!

    Fonte: Pinterest

    Foi com esta epígrafe “Quem escreve um livro cria um castelo, que o lê mora nele”, que Monteiro Lobato se inspirou para escrever dezenas de livros infantojuvenis, sendo considerado o pai da literatura infantojuvenil no Brasil, razão pela qual comemoramos anualmente, no dia 18 de abril, data natalícia do escritor, o Dia Nacional do Livro Infantil. Talvez meus queridos netinhos que acabaram de nascer e que já estão vivenciando um mundo altamente tecnológico, jamais compreenderão como Monteiro Lobato deu asas à minha imaginação, me levando a aventurar num mundo repleto de aventuras e de peripécias que povoam uma de suas maiores criações, o Sítio do Picapau Amarelo.

    Composta por uma série de 23 volumes de fantástica literatura, a história se passa em um sítio que leva o nome de Picapau Amarelo, onde mora uma senhora chamada Dona Benta, junto com sua neta Lúcia, mais conhecida por Narizinho, Tia Nastácia que é a cozinheira que trabalha na casa e Tio Barnabé. Nos livros da série, o Sítio também recebe a visita de Pedrinho (outro neto de Dona Benta), que vive na cidade grande e vem passar as férias com a avó e a prima. 

    Muito sábia, Dona Benta sempre lê e ensina coisas novas aos netos, contando para eles sobre a cultura do Brasil e do mundo. Já Tia Nastácia, além de preparar os famosos bolinhos de chuva, ensina às crianças sobre cultura popular e o folclore brasileiro, costurando para Narizinho sua inseparável amiga: a espevitada boneca de pano falante Emília. As leituras e ensinamentos de Dona Benta e Tia Nastácia levam as crianças a desenvolver a criatividade e a imaginarem um mundo de fantasias, envolvendo-se em diversas aventuras.

    Tio Barnabé, por sua vez, é um grande conhecedor da floresta e de seus habitantes fantásticos, sendo alguns deles o Saci Pererê, a Cuca e o Visconde de Sabugosa, um inteligente boneco feito de sabugo de milho, cuja sabedoria também obteve por meio dos livros da estante de Dona Benta. Nas aventuras, o Visconde é sempre escolhido por Pedrinho para fazer as coisas mais perigosas, pelo fato dele ser “consertável”. Até mesmo Emília usa e abusa do Visconde, ameaçando “debulhá-lo”. Entre os animais do Sítio, temos o Marquês de Rabicó, o burro Conselheiro e o rinoceronte Quindim, onde todos convivem harmoniosamente com personagens do mundo da imaginação, além de personagens que Monteiro Lobato resgata da mitologia grega. 

    Dessa maneira, o escritor tinha como principal intenção nos levar para o incrível mundo da imaginação e, ao mesmo tempo, despertar e aguçar a nossa curiosidade em aprender cada vez mais por intermédio da leitura. Dentre os livros mais famosos do Sítio do Picapau Amarelo que até hoje se mantêm vivas em minha memória estão: As Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, O Picapau Amarelo, Emília no País da Gramática e Histórias de Tia Nastácia. O Sítio do Picapau Amarelo também foi adaptado diversas vezes, desde 1950, para filmes e séries de televisão, sem contar que as trilhas sonoras das séries inspiradas neste Sítio são um capítulo à parte. Muitas das canções foram compostas e interpretadas por grandes nomes da nossa MPB como, por exemplo, a faixa que leva o nome da série, música tema composta e cantada por Gilberto Gil. 

    Como vimos, o Dia Nacional do Livro Infantil é uma homenagem a Monteiro Lobato e eu espero, à medida que meus netinhos forem crescendo, ter a oportunidade de acompanhá-los no encantado mundo do Sítio do Picapau Amarelo. Não obstante, não podemos nos esquecer que essa data celebra a literatura infantil brasileira como um todo. Afinal, ela só passou a ser consagrada no Brasil no início do século 19, conquistando leitores, emocionando gerações, fornecendo às crianças a chave do mundo da leitura, tão essencial para despertar o interesse pela literatura e possibilitando experienciar sentimentos complexos que farão parte da vida adulta. 

    Neste sentido, ler as obras de vários autores é importante para que as crianças criem um repertório de leitura e possam descobrir quais estilos mais lhes agradam pois, quaisquer que sejam os gêneros, seja poemas, contos, fábulas, tirinhas, textos teatrais ou novelas juvenis, o mais legal é que temos uma extensa lista de obras literárias. Selecionar as melhores delas é basicamente impossível, mas sendo hoje uma data especial em que podemos homenagear todos os escritores da literatura infantojuvenil brasileira, vamos destacar apenas alguns deles e suas imperdíveis obras:

    1- Ana Maria Machado foi a primeira autora de literatura infantil a fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Tem mais de cem livros publicados, com mais de 20 milhões de exemplares vendidos, publicados em vinte idiomas. Bisa Bia, Bisa Bel surgiu do desejo da autora de falar sobre os seus avós para os seus filhos, abordando a memória e ensinando as novas gerações a refletirem sobre as origens da família, investigando antepassados com quem não se teve a chance de conviver.

    2- José Mauro de Vasconcelos é o autor da obra O Meu Pé de Laranja Lima, um clássico da literatura infantojuvenil nacional e um campeão de vendas. Publicado pela primeira vez em 1968, conta a história do menino Zezé e seu amigo vegetal Minguinho, o pé de laranja lima, com quem desabafa, pois seu mundo não se restringe à fantasia infantil. Zezé vive uma dura realidade: a violência doméstica, cuja realidade é amenizada pela sensibilidade e carisma do protagonista e por sua amizade com Manoel Valadares, o Portuga. O livro ensina as crianças sobre injustiças e trata também do pesado tema da negligência durante a infância, ilustrando como elas tendem a se refugiar no seu próprio universo particular quando se sentem acuadas ou com medo.

    3- Clarice Lispector costuma ser celebrada pelos seus livros de literatura adulta. No entanto, os seus livros infantis são igualmente uma preciosidade. Escritos inicialmente para os próprios filhos, as obras foram publicadas e hoje são consideradas referências da literatura infantil brasileira. Em A Mulher que Matou os Peixes ficamos conhecendo uma narradora culpada pelo assassinato – sem querer! – de dois pobres peixinhos vermelhos que eram os bichos de estimação dos seus filhos. Ao longo das vinte e poucas páginas, a obra ensina o pequeno leitor a lidar com a dor e com a perda, e também exercita nos pequenos a capacidade de compreensão e do perdão.

    4- Ziraldo é um artista de muitas facetas. Além de ilustrador, é cartunista, jornalista, chargista, pintor e também dramaturgo. Autor de mais de 130 livros, é um dos escritores mais amados do Brasil e responsável por um dos grandes fenômenos da literatura infantil: O Menino Maluquinho, publicado pela primeira vez em 1980, em que propõe fazer com que as crianças agitadas se sintam compreendidas e acolhidas pelo convívio com o seu menino maluquinho. Além disso, é interessante assistir o pequeno garoto enfrentando uma série de desafios e situações limite, o que fortalece sua autonomia e identidade.

    5- Lygia Bojunga é lembrada como um dos nomes mais fortes da literatura infantil brasileira por investir em histórias que dialogam de maneira certeira com os pequenos. Em A Bolsa Amarela, Raquel é a protagonista dessa história que marca o desejo da descoberta, os anseios pela autonomia e alguns toques dos questionamentos de identidade, característicos da pré-adolescência.

    6- Mauricio de Sousa é um dos mais famosos cartunistas do Brasil, membro da Academia Paulista de Letras e, é claro, criador da Turma da Mônica, que já estimulou várias gerações de crianças a criarem o hábito da leitura através das histórias em quadrinhos. Uma Aventura no Limoeiro é o livro personalizado da Turma da Mônica, onde qualquer criança pode criar seu próprio personagem e fazer parte de uma aventura com a turminha. 

    7- Ruth Rocha é uma das mais importantes escritoras brasileiras de literatura infanto juvenil com mais de duzentos títulos publicados, cujas obras já foram traduzidas para vinte e cinco idiomas. Em seu livro infantil Marcelo, Marmelo, Martelo, o livro faz menção a uma das maiores dúvidas de Marcelo: por que as coisas têm determinados nomes? Inconformado, Marcelo decide dar novos nomes àqueles que considera não combinarem com o nome que originalmente têm. Assim, neste enredo, a escritora investiga a persistente curiosidade das crianças e o gesto de questionar o já pré-estabelecido.

    8- Pedro Bandeira é um dos autores mais populares da literatura infantil brasileira. Em Papo de Sapato o escritor parte de uma ideia bem criativa: e se os sapatos pudessem contar histórias? É no meio do lixão que os sapatos velhos e sem uso são descobertos. Encontra-se desde as botas antigas de um general, que já testemunharam duras batalhas, até a sapatilha de uma grande bailarina e as chuteiras de um famoso jogador de futebol. A criação de Pedro Bandeira nos faz pensar na sociedade de consumo que muitas vezes estimula a compra e depois o descarte. Também convida o leitor e a leitora a refletir sobre justiça social.

    9- Marina Colasanti é uma escritora ítalo-brasileira, que publicou diversos livros de contos, poesia e literatura infanto-juvenil. Sua obra Uma ideia toda azul recebeu o prêmio de melhor livro para jovens, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Para compor a criação, a autora se inspirou nos contos de fadas clássicos e muitas vezes fez uma releitura de histórias já presentes no inconsciente coletivo, narrando um universo mágico e maravilhoso que transporta as crianças para essa realidade paralela, estimulando a imaginação.

    10- Oswaldo Faustino é jornalista e escritor, tendo atuado em diversos veículos de comunicação como TV, rádio e mídia impressa. Em 1999 começou a se aventurar na coautoria de títulos voltados ao público infantil e desde então, segue fascinado por esse universo e também pelas relações etnico-raciais. Luana – A Menina que viu o Brasil Neném leva o leitor a viajar através do berimbau mágico de Luana para diferentes momentos da história do Brasil. As viagens consistem em apresentar determinadas épocas e despertar a importância de nossa diversidade e cultura.

    Além desses escritores, temos dezenas de outros autores de livros infantojuvenis que nos contemplam com suas magníficas obras. Gostaria muito de honrá-los agora, mas como o post ficaria muito, muito longo, deixarei para apreciá-los posteriormente. Todavia, antes de finalizar, sendo hoje o Dia Nacional do Livro Infantil, não posso deixar de citar o livro infantil O Extraordinário Mundo de Miki, totalmente escrito em língua de sinais (SignWriting) especialmente dedicado às crianças surdas. O livro, escrito pela Dani, recebeu o prêmio literário Aniceto Matti da Secretaria de Educação e Cultura de Maringá em 2019, ocasião em que 1000 livros foram publicados e distribuídos gratuitamente para as crianças surdas de todo o Brasil.

    Muito orgulho da mamãe aqui que, cercada de livros, livros e mais livros, também conseguiu incutir nas “filhotas” o gosto pela leitura, a ponto da Dani ser uma ávida leitora desde a infância e se empenhar em escrever e promover livros infantis em escrita de língua de sinais, pois só assim, através do contato desde cedo com livros que sejam acessíveis e de fácil compreensão, é possível incentivar a formação do hábito de leitura pelas crianças surdas, oferecendo-lhes as asas tão necessárias para que possam desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa. Enfim, como exaltou Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”. 

    ~ Bia ~

  • Abril Marrom: cuide da saúde dos seus olhos

    Fonte: Instituto de Olhos Marques 

    Nas primeiras noites de abril, luzes azuis iluminam vários monumentos mundo afora para anunciarem a Campanha Abril Azul, que visa primordialmente conscientizar e mobilizar ações e atividades referentes aos Transtorno do Espectro Autista (TEA), na tentativa de reduzir o preconceito e a discriminação que cercam as pessoas afetadas por esse transtorno. No entanto, outro importantíssimo movimento que também dá o ar da graça neste mês e merece a nossa especial atenção é a Campanha Abril Marrom que tem como objetivo alertar a população sobre a importância de cuidar da saúde dos olhos e prevenir doenças que podem levar à cegueira, uma vez que, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, existem mais de 1,2 milhão de cegos no Brasil. 

    Como mencionei no post Uma luz que brilha na escuridão, em homenagem ao Dia do Cego, que é comemorado no dia 13 de dezembro, a degeneração macular relacionada com a idade (DMRI) é a principal causa da cegueira entre adultos. Outras doenças como o glaucoma, diabetes e catarata também podem causar a perda da visão. Entre as crianças, as principais causas são glaucoma congênito, toxoplasmose ocular congênita e retinopatia da prematuridade, enfatizando-se que, de acordo com Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 80% desses casos podem ser evitados ou tratados com acompanhamento oftalmológico.

    Neste sentido, a Campanha Abril Marrom visa a conscientização sobre as principais doenças oculares responsáveis pela perda de visão, alertando sobre a necessidade de se prestar mais atenção aos nossos olhos e da importância de se fazer um acompanhamento oftalmológico para prevenir as doenças que podem resultar na perda parcial ou total da visão. Infelizmente, como muitas pessoas só buscam tratamento quando não é mais possível reverter o avanço da doença, diversas ações são realizadas em todo o país durante o mês de abril, destacando a importância da saúde ocular.

    O alerta também é para as mamães e os papais, pois algumas dessas doenças, como o glaucoma e a catarata congênitos, acontecem nos primeiros meses/anos de vida. Vale lembrar que o “teste do olhinho” deve ser feito até 48 horas após o nascimento, pois através desse exame é possível detectar doenças oculares que possam causar cegueira com o passar do tempo, permitindo identificar as melhores alternativas para o tratamento desses problemas.

    Criada em 2016, a cor marrom foi a cor escolhida pelo fato da maioria dos olhos da população brasileira serem castanhos, sendo que a campanha é veiculada no mês de abril por comemorarmos, no dia 8, o Dia Nacional do Braille. Caso você queira saber mais a fundo sobre esta campanha, vale a pena conferir o vídeo do oftalmologista Dr. Rodrigo Omoto, falando sobre a Campanha Abril Marrom. 

    Sabemos que muito do mundo nos chega através dos olhos, não é mesmo? Então, como evitar problemas de visão? 

    Não temos como discordar que a consulta a um oftalmologista é uma das medidas mais importantes para evitar problemas oftalmológicos, visto que esse profissional avalia o quadro atual e recomenda as melhores formas de prevenção e tratamento. De maneira geral, devemos agendar uma consulta, pelo menos, uma vez por ano. A Academia Americana de Oftalmologia (AAO) também orienta a visita ao médico para as seguintes situações: 

    • Pacientes com 20 anos e olhos saudáveis: marque apenas um exame completo feito pelo seu oftalmologista;
    • Pacientes com 30 anos: agende um exame completo, duas vezes, ao completar essa faixa etária;
    • Idosos com 65 anos ou mais: façam exame de sua saúde ocular a cada um ou dois anos. Aqui, seu médico verifica sinais de doenças associadas à idade, tais como: catarata, retinopatia diabética, degeneração macular e glaucoma.

    Existem ainda outros casos em que a consulta é indicada: 

    • Se você tiver uma infecção, lesão ou dor nos olhos, ou se notar moscas volantes repentinas e flashes ou padrões de luz;
    • Se você usa lentes de contato, consulte seu profissional anualmente;
    • Se você tem diabetes ou histórico familiar de doença ocular, converse com seu médico sobre a frequência com que seus olhos devem ser examinados.

    Além dessas orientações, dentre algumas medidas para se evitar problemas oculares e preservar a saúde dos olhos. temos:

    • Manter a imunidade alta por meio de exercícios físicos e uma alimentação adequada; 
    • Cuidados com as tecnologias como celulares, tablets e demais computadores, pois o uso excessivo desses equipamentos pode prejudicar a visão;
    • Em hipótese alguma se automedicar, buscando sempre um especialista em olhos para realizar os exames e só então usar o medicamento certo;
    • Se trabalha em áreas de risco, é importante seguir à risca todas as regras da empresa usando os Equipamentos de Proteção Individual e relatando alguma anomalia ao setor responsável;
    • Ficar atento ao histórico de doenças oculares na família, pois algumas são transmitidas por herança genética.

    Diante do exposto, a campanha Abril Marrom é uma oportunidade para disseminar informações e orientações sobre a prevenção e tratamento das doenças oculares que podem levar à perda da visão. Assim, é essencial estarmos cientes da “obrigatoriedade” de se fazer exames oftalmológicos regulares, sobretudo para quem tem histórico de doenças oculares na família ou já apresentou sintomas como dor nos olhos, visão embaçada ou outros desconfortos.

    Afinal, é preciso que as pessoas entendam que a maioria das doenças que afetam a visão podem ser prevenidas ou tratadas com sucesso, desde que sejam diagnosticadas precocemente. Ao participarmos das ações promovidas pela campanha, estaremos de alguma forma contribuindo para a promoção da saúde e do bem-estar de todos, pois ter uma vida plena e poder enxergar as belezas do mundo com todas as suas cores e formas, é um bom incentivo para ter cuidado com os olhos, vocês não concordam?

    ~ Bia ~

  • Saúde para todos

    Fonte: Organização Pan-Americana da Saúde

    O Dia Mundial da Saúde, celebrado anualmente no dia 7 de abril, marca o aniversário de fundação da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1948, ocasião em que vários países se uniram para promover a saúde, manter o mundo seguro e servir aos vulneráveis ​​– para que todos, em todos os lugares, pudessem atingir o mais alto nível de saúde e bem-estar. Além de focar na jornada para alcançar a Saúde para Todos, que é o tema deste ano, a OMS celebrará seu 75º aniversário sob o tema 75 anos melhorando a saúde pública, objetivando relembrar os sucessos da saúde pública que melhoraram a qualidade de vida durante as últimas sete décadas, além de motivar ações para enfrentar os desafios de saúde de hoje e de amanhã.

    No quesito saúde, muitas pessoas consideram-se saudáveis quando estão sem nenhuma doença, não é mesmo? Porém, a falta de enfermidades não significa, necessariamente, presença de saúde, pois afirmar que uma pessoa está saudável requer a análise de um conjunto de fatores, tais como a qualidade de vida e aspectos físicos e mentais. Diante dessa ambiguidade, a OMS aprovou, em 1946, o conceito que visa ampliar a visão do mundo a respeito do que é ser ou estar saudável, definindo que “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Para se ter uma ideia acerca da sua importância, de acordo com a Lei nº 8.080, de 1990, “a saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício”.

    A lei também aponta que para haver saúde, alguns fatores são determinantes, tais como: “a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer, e o acesso aos bens e serviços essenciais”. Assim, por mais irrelevantes que esses fatores possam parecer, de uma forma ou de outra, podem afetar a vida de um indivíduo e, consequentemente, a sua saúde, fazendo com que o Estado tenha o dever de garantir o bem-estar da população, sendo ele o responsável pela qualidade de vida de todos os cidadãos. No entanto, para que a gente possa se valer dessa premissa, é fundamental que, além de cuidarmos da nossa saúde, possamos nos engajar nas lutas sociais em nosso país, destacando que não devemos reivindicar melhorias apenas em hospitais, mas lutar por mais segurança, educação, lazer, cultura, entre outros direitos básicos e fundamentais para o completo bem-estar individual e social.

    Euforismo à parte, o Dia Mundial da Saúde é uma data que deve ser lembrada principalmente para que todos nós possamos redobrar cuidados próprios e preventivos com a saúde, com atenção voltada ao corpo, à mente e, portanto, ao bem-estar físico, psíquico e social. Muitas vezes não é fácil levar uma vida saudável, seja pela praticidade ou pela correria do cotidiano, mas que tal verificarmos algumas dicas de saúde do Hospital Santa Cruz de Canoinhas que podem, ao longo do tempo, fazer toda a diferença?

    • Alimente-se bem:  A alimentação é parte fundamental em nossa saúde e tudo aquilo que ingerimos, trará algum resultado, seja positivo ou negativo. O corpo humano precisa de uma série de nutrientes, mas não é raro que alguns destes nutrientes fiquem fora da nossa dieta.  Evitar alimentos gordurosos, processados e com excesso de sódio e açúcar já é um bom começo. O sódio é um grande vilão da pressão arterial e os alimentos gordurosos podem provocar, a longo prazo, o entupimento de artérias importantes.
    • Beba água: Pode parecer bobagem, mas o consumo de água é vital para o nosso corpo. Para se ter uma ideia, o corpo humano é formado por cerca de 70% a 75% de água e ela está presente em cada célula do nosso organismo. A água é responsável pelo transporte de vários nutrientes que alimentam nossas células. Para que o nosso corpo funcione “a todo vapor” é preciso estar hidratado. Outro motivo para uma boa hidratação é o funcionamento dos órgãos, principalmente dos rins. Com o consumo baixo de água, o rim começa a diminuir o processo de filtragem das toxinas e minerais, o que pode ocasionar problemas de cálculos renais. Lembrando que a dose diária de água recomendada para uma pessoa adulta é de, no mínimo, 1,5 litros a 2 litros.
    • Durma o necessário: A vida moderna pode oferecer centenas de maravilhas, como internet, celulares, televisões. Nossos dias ganharam inúmeras tarefas e o tempo para o descanso acabou diminuindo. Você se considera uma pessoa descansada e acha que tem dormido o suficiente? Segundo o Instituto do Sono, a dose diária recomendada de descanso pleno é de oito horas. Porém, o sono precisa ser de qualidade, num local confortável e livre de claridade e ruídos. Muitas vezes dormimos pouco e, pior, dormimos mal.
    • Cuide da higiene: Algumas doenças oportunistas podem aparecer por causa da imunidade baixa ou pela falta de higiene. Lições simples como lavar as mãos após ir ao banheiro ou antes das refeições diminuem consideravelmente o risco de infecções por bactérias. Além disso, tomar banhos com frequência e viver em ambientes limpos são atitudes importantes que evitam a proliferação de fungos e bactérias. Ainda falando em higiene, é muito importante não esquecermos da saúde bucal. Para manter a boca livre de cáries e os dentes saudáveis é importante escová-los sempre após as refeições, de maneira adequada, e não esquecer a utilização do fio dental.
    • Movimente-se: Eis uma das etapas mais difíceis de serem cumpridas, pois precisa de tempo, dedicação e força de vontade. Porém, não é preciso fazer uma mudança tão radical para conseguir uma qualidade de vida melhor. As pequenas atitudes podem ser fundamentais. Evite fazer pequenos percursos de carro, se puder fazê-los a pé. Caminhe sempre quando tiver oportunidade – este hábito pode se tornar uma constante e, só assim, você estará preparado para outras etapas como corridas ou outros esportes.
    • Beba com moderação: O alcoolismo é um dos problemas sociais mais graves do mundo. Os casos de dependentes do álcool são analisados anualmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que sempre divulga relatórios sobre o consumo de bebidas alcoólicas no mundo. Faça uma análise e veja o quanto de bebida alcoólica você consumiu no último mês. Se você bebe diariamente ou em quantidades excessivas, talvez seja a hora de dar uma analisada com cuidado na situação. Beber com moderação não faz mal à saúde, mas o consumo excessivo e constante pode prejudicar gravemente o organismo, além de promover o estado viciante. No último Relatório Anual do Consumo de álcool da OMS, o Brasil foi elogiado pela adoção da Lei Seca, que pune severamente quem dirige após o consumo de álcool. Este é mais um dos motivos para se controlar.
    • Esqueça o cigarro: Alguns estados brasileiros também adotaram uma lei enérgica contra o consumo de cigarros em locais fechados e de convívio coletivo. Mesmo sendo uma droga legal, o cigarro é reconhecidamente o causador de diversas doenças como câncer de pulmão e enfisema pulmonar. Deixar de fumar não é uma tarefa tão simples e é preciso muita força de vontade e apoio de pessoas próximas. Mesmo assim, não desista e opte por uma vida mais saudável e duradoura.
    • Consulte o médico: Uma das causas de mortalidade precoce é o diagnóstico tardio. Tente entender que o corpo humano funciona como uma máquina e, se alguma parte desta máquina parar de funcionar, o corpo vai sentir. Se você está com alguma dor ou percebeu algo diferente, por menor que seja, procure um especialista e esclareça suas dúvidas. Mesmo se não sentiu nada, tente fazer exames periódicos e fique de olho em doenças que estão presentes na sua família. Diabetes, hipertensão e câncer são doenças que podem ser hereditárias, portanto, todo cuidado é pouco nestes casos.

    O Dia Mundial da Saúde vem ao encontro com propostas que se concentram em incentivar boas práticas para que a saúde seja tanto preservada, quanto tratada da melhor forma possível. É também um dia especialmente dedicado para se analisar as questões relativas à saúde no mundo, uma oportunidade para motivar ações de enfrentamento aos desafios da saúde atuais e futuros, informar a população e promover a saúde, para que todos, em todos os lugares, possam atingir o mais alto nível de saúde e bem-estar. Que essa data nos leve à  conscientização sobre o tema “Saúde para todos”, pois como dito anteriormente, a saúde é um direito de todos os cidadãos e é garantida pela Constituição Federal do Brasil de 1988. De acordo com o Art. 196 da Constituição:

    “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”

    Todavia, esse Artigo ainda desafia nossa reflexão e mobilização pela concretização do direito à saúde, pois como afirmam David Stuckler e Sanjay Basu, “a verdadeira fonte de riqueza de qualquer sociedade é o seu povo. Investir na saúde pública é uma escolha sensata em tempos de prosperidade e uma necessidade urgente em tempos de aflição”.

    ~ Dani ~

  • Abril Azul: mais informação, menos preconceito!

    Fonte: Câmara Municipal de Campo Grande – MS

    Para iluminar o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para ser comemorado no dia 2 de abril, esse mês “abriu” as portas colorindo vários monumentos em todo o Brasil com luzes azuis, no intuito de chamar a atenção para a campanha nacional, que neste ano traz o tema: “Mais informação, menos preconceito”.

    Por que essa data é importante?

    Uma vez que muitas pessoas desconhecem o que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a data tem como objetivo difundir informações, valorizar a importância do diagnóstico, além de conscientizar e mobilizar ações e atividades referentes aos Transtorno do Espectro Autista (TEA), reduzindo o preconceito e a discriminação que cercam as pessoas afetadas por esse transtorno.

    Mas, o que é autismo?

    De acordo com a Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (ANIA/BR), o autismo é uma condição biopsicossocial que afeta a comunicação, a interação social e o comportamento de uma pessoa. A deficiência biopsicossocial é um modelo que considera a pessoa como um todo, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Esse modelo reconhece que as condições de saúde não são apenas resultado de fatores biológicos, mas também de fatores psicológicos e sociais. O autismo é considerado uma deficiência biopsicossocial porque envolve aspectos biológicos, como a genética e o desenvolvimento cerebral, aspectos psicológicos, como o processamento sensorial e a cognição, e aspectos sociais, como a interação social e a adaptação ao ambiente.

    Por causa dessas características, a referida associação esclarece que as pessoas com autismo muitas vezes precisam de apoio em diferentes áreas, como terapia ocupacional, fonoaudiologia, terapia comportamental, psicoterapia e educação especial. É importante reconhecer e atender às necessidades biopsicossociais das pessoas com autismo, para ajudá-las a desenvolver todo o seu potencial e ter uma vida plena e satisfatória.

    Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde, de acordo com o quadro clínico, os sintomas podem ser divididos em 3 grupos:

    – ausência completa de qualquer contato interpessoal, incapacidade de aprender a falar, incidência de movimentos estereotipados e repetitivos, deficiência mental;

    – o paciente é voltado para si mesmo, não estabelece contato visual com as pessoas nem com o ambiente; consegue falar, mas não usa a fala como ferramenta de comunicação (chega a repetir frases inteiras fora do contexto) e tem comprometimento da compreensão;

    – domínio da linguagem, inteligência normal ou até superior, menor dificuldade de interação social que permite levar a vida próxima do normal.

    Como acabamos de verificar, esses sintomas prejudicam a pessoa com autismo no seu relacionamento com outras pessoas e podem afetar o desenvolvimento da sua autonomia. Entretanto, os sinais podem ser tão leves que acabam até mesmo passando despercebidos, conforme mencionei no post sobre a Síndrome de Asperger, publicado há dois meses. No entanto, diante destes sintomas, como a suspeita dos pais pode ajudar no processo de diagnóstico do autismo? 

    Identificar características do TEA (Transtorno do Espectro do Autismo) nos comportamentos infantis é fundamental para o entendimento da família a respeito do transtorno, além de trazer clareza e direcionamento para promover as melhores intervenções no escopo de oferecer mais qualidade de vida à pessoa autista. O TEA geralmente é identificado por especialistas quando a criança possui entre 1 e 3 anos. Porém, é possível que os próprios pais ou parentes próximos ao convívio com a criança sejam capazes de identificar os primeiros sinais a partir dos 8 meses de vida, sendo que esse diagnóstico precoce melhora o desenvolvimento geral da criança, ajudando-a a ter mais independência e autonomia e, consequentemente, levando-a a adquirir mais habilidades sociais essenciais, fazendo com que tenha capacidade de um convívio melhor em diferentes ambientes.

    Neste sentido, conforme a Tismoo, a intervenção precoce tão logo os primeiros sinais do transtorno do espectro do autismo são identificados, é de suma importância pois, por meio desta intervenção, crianças de até 5 anos desenvolvem habilidades de comunicação, ganham competências sociais, aumentando o desenvolvimento cognitivo e habilidades motoras. Quando iniciada logo nos primeiros anos de vida, a intervenção se torna mais eficiente, com maior probabilidade de ganhos no desenvolvimento e reduzindo as chances da manifestação de outros problemas. Dentre eles é importante destacar o Modelo Denver, desenvolvido após duas décadas de estudo e pesquisa, e que em 2012 foi considerado uma das maiores descobertas médicas pela revista Times. O Modelo utiliza princípios da Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis), em que os pais e terapeutas utilizam atividades lúdicas e brincadeiras para reforçar os comportamentos positivos. 

    De um modo geral, todas as crianças devem ser monitoradas quanto aos primeiros sinais, ressaltando-se que irmãos de crianças já diagnosticadas com autismo estão mais suscetíveis ao risco e devem receber atenção redobrada. Apesar de não ser possível diagnosticar o autismo somente por meio de análises visuais, alguns sinais são comuns e devem receber atenção, tais como: 

    • Repetição de ações contínuas;
    • Dificuldade de relacionamento social; 
    • Limitação de resposta somente ao próprio nome;
    • Pouco entendimento sobre as próprias emoções;
    • Dificuldade em lidar com mudanças; 
    • Repetição de palavras ditas a eles;
    • Dificuldade em receber ou fazer contato físico e visual;
    • Respostas incomuns a ações cotidianas; 
    • Dificuldade de envolvimento em brincadeiras imaginativas. 

    Uma vez que os sinais na infância são geralmente evidentes até os 5 anos, dentre algumas orientações que podem ajudar os pais a perceber alterações importantes no comportamento dos seus filhos nos primeiros meses de vida, temos:  

    • Aos 12 meses: crianças autistas podem não responder ao ouvir seu nome, mesmo que repetido várias vezes, mas podem ser capazes de responder a outros sons;
    • Aos 18 meses: em muitos casos, não realizam nenhuma tentativa de compensação no atraso da fala como, por exemplo, a utilização de expressões faciais, sendo que nesta etapa, algumas crianças podem apresentar ecolalia maior que o esperado, repetindo frases e palavras que ouve, seja das pessoas ou quaisquer outros meios de comunicação. 
    • Aos 24 meses: a maioria das crianças autistas não têm o costume de mostrar objetos aos pais na tentativa de interagir e, quando o fazem, geralmente não mantêm contato visual. 

    Diante do exposto, na condição de mãe especial, sei o quanto o diagnóstico do autismo ou de qualquer outra deficiência é um baque no primeiro momento, um mar de incertezas e insegurança, sendo extremamente necessário que este sentimento seja acolhido e processado, para que a família se fortaleça nesta nova jornada. Apesar de inesperado em um primeiro momento, é importante buscar ajuda não só para a criança, mas para os pais também. 

    Amor é e sempre será o melhor remédio. Toda criança especial precisa de muito amor e não pense que a criança autista não tem sentimentos ou que não goste de carinho! Devemos aprender como dar este carinho, pois cada um sente e reage do seu jeito. Não podemos jamais perder a esperança e devemos sim, acreditar sempre no potencial da criança portadora de necessidade especial que, no post de hoje, é a criança autista. Elogiar e elevar constantemente a sua autoestima vai permitir que ela se desenvolva melhor sabendo que está sendo amada e reconhecida.

    Paciência é, sem dúvida, a base de tudo. No caso específico de pessoas autistas, precisamos nos ater que elas não compreendem todos os sinais sociais. Por isso, é importante facilitar a comunicação com frases curtas, utilizar figuras, cores e formas como didática para facilitar a interação. Afinal, demonstrar interesse pelo universo da criança autista através de  interações, cria aproximação e gera confiança, além, é claro, de ajudar no desenvolvimento da interação social. Assim, somadas às intervenções psicossociais baseadas em evidência, tais como terapia comportamental e programas de treinamento para pais, reduz-se às dificuldades de comunicação e de comportamento social, resultando em um impacto positivo no bem-estar e na qualidade de vida de pessoas com TEA e seus cuidadores. As intervenções devem sim, serem acompanhadas de atitudes e medidas amplas que garantam que os ambientes físicos e sociais sejam acessíveis, inclusivos e acolhedores.

    Desse modo, nesse evento que é reconhecido internacionalmente como Abril Azul, vamos “abraçar de corpo e alma” esse movimento que visa promover a plena participação de todas as pessoas com autismo na sociedade, garantindo que elas tenham o apoio necessário para exercer seus direitos e liberdades fundamentais. Afinal de contas, os autistas, assim como as aves, são diferentes em seus voos. Todos, no entanto, são iguais em seu direito de voar.

    ~ Bia ~

  • Primavera cor-de-rosa no Japão

    Fonte: Quickly Travel | Monte Fuji e Sakura

    Está oficialmente aberta a temporada de flores no Japão e para o deleite da população, quem, em todo o seu esplendor, inaugura esta belíssima estação é a tão aguardada flor de cerejeira, mundialmente conhecida por sakura, que pincela o país em vários tons de rosa nesta época do ano. Simmm… desde o dia 21 de março, Equinócio da Primavera na terra do sol nascente (Shunbun no Hi), que marca o término do rigoroso inverno e o início da primavera, a previsão do dia de florescimento das sakuras em cada região, viram as notícias mais importantes desta estação. O fenômeno do desabrochar desta flor, que acontece primeiro no sul, onde o clima é mais quente, e depois mais ao norte, onde o clima é mais frio, é chamada de “linha de frente das cerejeiras”, ocasião em que os japoneses esperam, empolgados, pelo florescer das sakuras de sua região, ocorrendo geralmente entre o final de março e começo de abril, para fazer passeios ao ar livre.

    Fonte: Japan Meteorological Corporation

    Em plena floração, a flor de cerejeira é o marco de importantes eventos, como as cerimônias de graduação em março e as cerimônias de ingresso nas escolas, faculdades e empresas em abril, considerados pontos de virada essenciais na vida dos japoneses. Assim, a sakura está enraizado no coração de toda a população, trazendo à tona sentimentos como a alegria de presenciar o crescimento dos filhos, a gratidão pelas pessoas e também expectativas e preocupações em relação a um novo começo, sendo até mesmo possível apreciar diversas canções que expressam esses sentimentos através desta flor. Uma das minhas preferidas é a do cantor Naotaro Moriyama e se você tiver curiosidade, não deixe de ver esse video que acabei de encontrar no Youtube:

    Sakura – Naotaro Moriyama

    No Japão, mais de 100 espécies de cerejeiras florescem em todo o país, apreciadas não só pelos japoneses, mas pelos estrangeiros, sendo a primavera a estação que mais atrai turistas do mundo inteiro, que visitam o país exclusivamente para contemplar essa flor, cuja floração acontece uma única vez a cada ano. Em razão da curta duração de 7 a 10 dias, porém intensa e fascinante, para muitos japoneses, as sakuras remetem à vida humana no sentido da grandiosidade e efemeridade. Assim, elas florescem e no auge de sua floração e beleza, as flores começam a cair, mostrando que, embora a vida seja bela, também é curta e passageira, passando a ser relacionada com o conceito de wabi-sabi (refere-se à beleza de poder sentir a profundidade e a riqueza da natureza em meio à tranquilidade), que faz parte da estética e espiritualidade japonesa. 

    Fonte: CicloVivo

    Definitivamente, o Hanami Matsuri, que quer dizer “Festival de contemplação das flores”, é um dos mais belos festivais do Japão, com várias atividades que são realizadas em torno destas árvores, como festivais com músicas e danças. Mas a principal atividade é, sem dúvida, o tradicional piquenique sob as árvores repletas dessas delicadas flores. É uma tradição que existe há séculos, sendo preservada e praticada pela maioria das famílias japonesas. Por causa da sua popularidade, muitas famílias chegam a madrugar para garantir um bom lugar nos parques, a fim de reunir  famíliares e/ou amigos, para apreciarem a beleza das flores, enquanto saboreiam o tradicional “obentô”, geralmente acompanhado do indispensável chá, além de bebidas alcoólicas, como saquê e cerveja, ficando até o escurecer para celebrarem essa ocasião que tem um significado muito especial: tudo o que é bom, dura pouco!

    Fonte: Good Luck Trip

    Neste sentido, o hanami à noite é chamado de Yozakura (literalmente “sakura noturno”) e, em muitos lugares, como no Parque Hirosaki, localizado na província de Aomori, que abriga cerca de 2600 árvores de 52 espécies, incluindo a yae-beni-shidare, é possível apreciar o esplêndido espetáculo das flores, especialmente iluminado à noite durante o período do festival, que neste ano ocorrerá do dia 21/04 a 05/05.

    Fonte: Japan House

    Um pouquinho mais ao norte, dentre os inúmeros pontos famosos para apreciar as belas flores de cerejeira, a estrada Nijukken-Shinhidaka, na província de Hokkaidō, possui um trecho reto de 7 quilômetros com mais de 2000 árvores, que formam a fileira de sakuras mais longa do Japão. 

    Fonte: Viagem e Turismo

    Do final de março ao início de abril, as passarelas ao redor do fosso Chidorigafuchi, perto do Palácio Imperial, são tingidas de rosa por centenas de cerejeiras, proporcionando uma das vistas mais impressionantes de Tóquio. Esta visão mágica atrai muitos visitantes e nas noites em que as flores são iluminadas, é possível alugar barcos para desfrutar de um belo passeio noturno sob o túnel brilhante de sakuras refletidas na superfície da água. No final da temporada, o fosso fica quase completamente coberta de pétalas, criando a ilusão de um rio rosa etéreo.

    Fonte: Quickly Travel | A circunferência de Yamataka Sakura é de 11,8 metros em torno de suas raízes externas

    No entanto, a maior e a mais antiga cerejeira do Japão está localizada nos jardins do templo Otsuyama Jisso, na cidade de Hokuto, província de Yamanashi. Chamada de Yamataka Jindai Sakura (Zakura), Yamataka Kamishiro Sakura, entre outros nomes, a antiga árvore é Patrimônio Natural do Japão e existe há, pelo menos, 2 mil anos, de acordo com histórico divulgado no site oficial da prefeitura de Hokuto. Durante a floração, que ocorre entre a última semana de março e início de abril, podendo variar de acordo com as condições climáticas, seus longos galhos, que percorrem por uma extensa área no templo, são cuidadosamente amparados por varas para que não se quebrem com o peso das flores. Junto à Usuzumizakura de Motosu (província de Gifu) e à Miharu Takizakura (província de Fukushima), elas são conhecidas como as Três Grandes Cerejeiras do Japão.

    Fonte: Qual Viagem

    Localizada na província de Nara, Monte Yoshino é um dos lugares mais belos do Japão para admirar a sakura. Uma trilha que passa pelos pequenos vilarejos da montanha, colorindo uma extensa área de 8 quilometros de degrade rosa, leva ao topo para um deslumbrante cenário de 30.000 cerejeiras inalteradas por um milênio, que cobrem os vales e as cordilheiras, florescendo no início até o final do mês de abril.

    Fonte: Japan House | Templo Tsubosaka

    No templo Tsubosaka – Takatori, também na província de Nara, cerca de 300 cerejeiras somei-yoshino, criam a ilusão de que as construções flutuam entre as flores, cobrindo até mesmo a estátua de Buda feita de pedra, com cerca de 15 metros, chamada de “Sakura Daibutsu”. O melhor período para visitar o local vai do fim de março ao início de abril, valendo a pena ver as cerejeiras iluminadas, inclusive, durante à noite.

    Fonte: Mitoyo Kanko

    Quando o tempo está ensolarado, do topo do Monte Shiude, situado em Mitoyo, na província de Kagawa, é possível ver a famosa Grande Ponte de Seto (Seto Ohashi).  Na primavera, cerca de mil cerejeiras florescem e o contraste da montanha cor-de-rosa com o azul do Mar Interior de Seto é de tirar o fôlego!!! 

    Mesmo diante desses inusitados panoramas, onde é possível se encantar com diferentes cenários cor-de-rosa, vale lembrar que o Japão nos contempla com centenas de outros locais, onde as cerejeiras esbanjam sua imponência, e qualquer que seja o lugar que a gente more ou vá passear, neste curto período de floração, sempre tem uma bela sakura nos dando boas-vindas para curtirmos a estação mais agradável e aguardada pelos japoneses, que costumam dizer que o ano só começa de verdade quando a primavera chega e o inverno dá o seu adeus.

    Fonte: Japan House | Hana Kasane, doce japonês inspirado na Sakura

    Além dos belíssimos espetáculos a céu aberto, a sakura também é apreciada na vida cotidiana. Doces como o hanami dango e o sakura mochi podem ser encontrados não só em lojas especializadas em doces japoneses, mas também em lojas de conveniência. Outros doces, como a hana kasane, são tão bonitos que nos entretêm só de olhar. É possível encontrar, também, roupas, acessórios e objetos de arte com o tema sakura, além de perfumes e cosméticos com a fragrância desta flor. 

    Deste modo, as sakuras nos lembram que é preciso aproveitar a beleza enquanto ela está presente, pois o mundo não é o tempo todo cor-de-rosa, nos mostrando que a natureza tem seu próprio ritmo e as coisas começam e terminam, independente da nossa vontade. Além do significado profundo, da beleza do transitório e do renascimento, a primavera no Japão é a estação propícia para celebrar a vida com amigos e familiares, sendo uma ótima época para começar novos projetos e renovar esperanças, pois como declama a poetisa Crysgrer: “Meu mundo não é azul. Nem cor-de-rosa. Ele tem vida, sentimento e saudade da outrora. Há defeitos. Ajustes. Começos, tropeços e recomeços”.

    ~ Bia ~

  • À procura da felicidade

    Fonte: Canção Nova

    Quem diria que até a felicidade tem a “felicidade” de ter o seu próprio dia! Essa semana, mais precisamente no dia 20 de março, comemoramos o Dia Internacional da Felicidade. Instituído em 2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) financia anualmente o Relatório Mundial da Felicidade, com indicativos medidos em vários países. A Finlândia lidera o ranking pela 6º vez consecutiva como o país mais feliz do mundo e o Brasil vem perdendo posições, sendo que de 16º lugar em 2016, foi para 41º em 2021, ocupando atualmente o 49º lugar. 

    Mas… o que é felicidade?

    Embora existam muitas definições para o que seja a felicidade, segundo a pesquisadora Carla Furtado, fundadora do Instituto Feliciência, o conceito de felicidade significa mais do que um estado de euforia ou alegria, afirmando que “a felicidade é uma construção feita ao longo da vida, baseada na percepção das emoções positivas que vivemos e no propósito de vida que temos”. Ela diz, inclusive, que é possível ser feliz mesmo em tempos nebulosos, a partir do momento que buscamos ativamente por coisas e pessoas que nos tragam sentimentos positivos, de pertencimento e conexão, apontando ser uma habilidade que adquirimos treinando todos os dias e que “ser feliz é esse caminho que vamos construindo, não o destino final”.

    Nesse sentido, muitos cientistas sociais atribuem a felicidade a dois elementos: o equilíbrio emocional que diz respeito à quantidade de emoções e humores positivos vivenciados por uma pessoa e os níveis de satisfação que se referem à quão satisfeita essa pessoa se encontra com a sua vida. Assim, ao experimentarmos uma variedade de emoções, ser feliz também está associado à percepção geral sobre a vida. Se somos otimistas, é provável que mais sentimentos e emoções boas sejam experimentados no dia a dia. Em compensação, se enxergamos a vida como um estorvo, a tendência é estar rodeado de emoções ruins, pois raiva, tristeza e angústia são expressões claras de infelicidade. 

    De acordo com a Vittude, a felicidade é um termo abrangente e pessoal, sendo que na Psicologia usa-se a expressão bem-estar subjetivo (BES), que engloba três aspectos:

    • Subjetividade: bem-estar conquistado através da experiência pessoal de cada indivíduo, envolvendo os eventos de vida, os relacionamentos interpessoais e a vivência diária. Sentir que possui um propósito de vida também proporciona felicidade. As pessoas precisam ver sentido em seus relacionamentos, planos e comportamentos, mesmo que sejam simples.
    • Satisfação: para o psicólogo Martin Selligman, a principal forma de medir a felicidade é analisar o seu nível de satisfação com a vida. Quanto mais satisfeitas as pessoas estiverem com todos os segmentos de suas vidas, mais bem-estar psicológico terão. 
    • Predominância do positivo: surge do prazer em fazer o que se gosta e de realizar desejos. Em ambas as situações, as pessoas ficam mais felizes ao satisfazerem as suas necessidades. Essas, por sua vez, dependem muito da personalidade, objetivos pessoais e crenças cultivadas desde os primeiros anos de vida. Algumas pessoas encontram a felicidade na simplicidade, enquanto outras somente estão felizes quando se desafiam e prosperam. 

    Apesar das pessoas felizes possuírem mais familiaridade com esses aspectos, não é possível analisar as suas experiências de vida e torná-las uma referência universal, pois todos nós possuímos percepções diferentes sobre o que é felicidade. Por exemplo, para alguns, viajar pode ser a principal razão da felicidade, enquanto para outros, fazer trabalhos voluntários pode trazer uma imensa satisfação. Tomando-os como pressuposto, para analisar o nível de felicidade, a psicóloga Tatiana Pimenta sugere respondermos às seguintes perguntas:

    • Que experiências, hábitos, objetos e relacionamentos lhe fazem feliz?
    • Quão satisfeito você está com a sua vida?
    • Você sente mais prazer e alegria do que emoções negativas, como tristeza, medo e raiva?

    Através das respostas, é possível pontuar quais aspectos da vida necessitam ser ajustadas. Por exemplo, se existe uma insatisfação com o trabalho atual, quais mudanças podem ser feitas para elevar o nível de satisfação? As pessoas felizes geralmente compartilham algumas características, cujos atributos também podem ajudar a responder a última pergunta, tais como:

    • risadas e sorrisos constantes;
    • reconhecimento da alegria diária;
    • facilidade em fazer amigos e manter relacionamentos;
    • postura benevolente e vontade de ajudar o próximo;
    • se colocar em primeiro lugar;
    • resiliência;
    • fé no futuro;
    • otimismo;
    • paciência;
    • assume responsabilidade por seus atos;
    • jogo de cintura no ambiente de trabalho;
    • habilidade de resolver conflitos. 

    Por que é difícil ser feliz?

    Nem todas as pessoas conseguem sustentar a felicidade por muito tempo ou encontrar motivos para rir. Às vezes, essa dificuldade pode estar associada a transtornos mentais nem sempre diagnosticados, como a depressão e a síndrome do pânico. Em outras, pode ser por conta da mentalidade cultivada por esses indivíduos, pois como mencionado anteriormente, uma parcela considerável do nosso bem-estar psicológico é afetado por eventos de vida e sentimentos. Assim, a psicóloga Tatiana Pinheiro argumenta que uma pessoa pode ter vivências incríveis, mas alimentar o tédio, a insatisfação e o medo, não conseguindo aproveitar as oportunidades que vão ao seu encontro. Em contrapartida, outra pessoa pode viver em um ambiente estressante e, ainda assim, encontrar motivos para sorrir. Ela consegue fazê-lo através da esperança e do bom humor. 

    Querendo ou não, encontraremos situações desagradáveis em nossas vidas, de maneira que quando damos muita atenção para os elementos negativos, muitas vezes distante do nosso controle, pois envolvem atitudes de outras pessoas, decisões de governantes, ações do clima, avanço ou estagnação da economia global, entre outros fatores, acabamos por consumir informações de má qualidade e cercados de emoções negativas e, de quebra, as razões para ser feliz vão desaparecendo cada vez mais de nossa vida. Contudo, quando valorizamos os aspectos positivos, encontrar a felicidade deixa de ser um desafio, uma vez que, ao enxergarmos o lado bom de toda situação, somos capazes de superar grandes adversidades, de sentir satisfação e gratidão com o necessário, não se deslumbrando com o luxo e nem com a riqueza e de desenvolver bons hábitos. 

    Posto isso, para não sermos afetados diante de acontecimentos ruins, a neuropsicóloga Juliana Gebrim orienta que “celebrar pequenas vitórias, por exemplo, mesmo as que passariam despercebidas, nos ajuda a focar no aspecto positivo da vida”, incentivando-nos à prática de atividades físicas para manter a saúde mental e emocional em dia. No caso das situações que provoquem muita angústia, ela aconselha buscarmos ajuda profissional, pois “a psicoterapia auxilia a encontrar a felicidade e alcançar bem-estar físico e emocional, além de ajudar a ter mais autoconhecimento, autoestima e confiança”.  

    Então, como manter a felicidade no dia a dia?

    Muito embora possa parecer utópico ser feliz o tempo inteiro, é possível ser feliz a maior parte do tempo. No intuito de dar o pontapé inicial na jornada pela felicidade, vale a pena dar uma “olhadinha” nas dicas da Vittude que nos ajudam a ser feliz: 

    • Agradecer pelos bons elementos presentes em nossa vida com constância é uma estratégia simples para elevar o humor e renovar a perspectiva sobre ela. Praticar a gratidão especialmente nos dias que sentir que nada dá certo vai fazer com que a gente se sinta bem melhor. 
    • Conhecer-se é essencial para ter uma vida feliz já que, através do autoconhecimento, conseguimos identificar exatamente o que gostamos e o que não gostamos. Então, nada melhor do que questionarmos quais fatores nos causam alegria e sensações boas, trazendo-os para a nossa vida, mas tomando o devido cuidado para não utilizá-los como mecanismos de gratificação, uma vez que podemos nos tornar dependente deles. 
    • Fazer boas amizades pois as pessoas querem ficar perto de quem é positivo para compartilhar a abundância de positividade. Assim, como as pessoas felizes têm mais facilidade e oportunidades de criar laços afetivos, a dica é fazer amizade com pessoas bem humoradas e aprender a ver o lado bom da vida com elas. 
    • Aprender a controlar as emoções para não sofrermos desnecessariamente. Sempre que sentirmos tristeza ou raiva, devemos refletir se realmente vale a pena se entregar às essas emoções. Com a prática, esse exercício simples pode nos ajudar a controlar as emoções com mais eficiência.

    Como acabamos de ver, a felicidade pode sim, ser construída diariamente. Quando nos dispomos a isso, adquirimos mais qualidade de vida, resiliência e controle emocional. Afinal, nada melhor do que nos deixar levar pelo pensamento de Santo Agostinho, que enfatizou que a “felicidade é seguir desejando aquilo que já se possui”. Vamos, então, focar ainda mais na lista de agradecimentos do que na lista de desejos, como sugere Carla Furtado, e nos aproximarmos cada vez mais da felicidade ordinária, ao invés de procurá-la no extraordinário, pois a felicidade está basicamente em cultivar todos os dias uma mentalidade otimista perante tudo e todos!!!

    ~ Bia ~ 

  • A água e a fábula do beija-flor

    Fonte: Saneas Online

    Sabemos que a vida neste planeta só é possível graças a presença de água, sendo de fundamental importância para o nosso corpo, que necessita de água para diversos processos, como a manutenção da temperatura corpórea e o transporte de substâncias. No entanto, segundo dados extraídos do Mundo Educação, 97,5% da água do planeta é salgada, não podendo ser usada para consumo humano, destacando-se que a pequena quantidade disponível, não é distribuída igualmente no mundo, existindo locais onde esse recurso é extremamente escasso. 

    Além disso, a poluição causada pelas atividades humanas torna a água disponível imprópria para o consumo, fazendo com que, de acordo com a ONU, cerca de 2,1 bilhões de pessoas não tenha acesso à água potável, contabilizando 4,5 bilhões de pessoas a não terem acesso às instalações básicas necessárias para sequer lavar as mãos adequadamente. Já dá pra imaginar o quanto esse quadro é deveras preocupante, pois o hábito de lavar as mãos é indispensável para a prevenção de várias enfermidades, não é mesmo?

    Como necessitamos de água para a sobrevivência, a ONU divulgou a Declaração Universal dos Direitos da Água, sendo que neste documento são apresentados pontos importantes sobre esse recurso hídrico, destacando sua importância e a necessidade de sua preservação. Veja, a seguir, os principais pontos dos 10 artigos desta declaração:

    • Art. 1º – A água faz parte do patrimônio do planeta.
    • Art. 2º – A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura.
    • Art. 3º – Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados.
    • Art. 4º – O equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos.
    • Art. 5º – A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores.
    • Art. 6º – A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.
    • Art. 7º – A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada.
    • Art. 8º – A utilização da água implica respeito à lei.
    • Art. 9º – A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.
    • Art. 10º – O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

    Neste sentido, em julho de 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou que a água limpa e segura e o saneamento básico são Direitos Humanos. Entretanto, ainda falta muito para que todas as pessoas tenham esse direito realmente garantido.

    Desse modo, não por acaso, mas objetivando promover a conscientização sobre a relevância da água para a nossa sobrevivência, a importância do seu uso sustentável e a urgente necessidade de conservação dos ambientes aquáticos, de modo a evitar a poluição e a contaminação, o Dia Mundial da Água foi criado no dia 22 de março de 1992, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. 

    Desde então, a data visa conhecer mais sobre e discutir acerca das problematizações do uso da água, promovendo debates na sociedade e criando estratégias para a utilização consciente do uso da água. Assim, a cada ano, um novo tema é escolhido, de forma que os debates deste ano serão em torno do tema “Acelerando Mudanças – Seja a mudança que você deseja ver no Mundo”, no intuito de discutir formas de acelerar mudanças para solucionar a crise global da água e saneamento, convidando as pessoas a repensarem suas atitudes em relação ao uso e consumo de água em casa, na escola, na comunidade, enfim, nas nossas vidas, assumindo o compromisso de mudanças nas ações diretamente relacionadas a esse imprescindível recurso natural.

    Na chamada da data, a ONU questiona: “neste exato momento, em que estamos diante de uma crise global de água e saneamento, ficaremos parados e olhando ou vamos agir?” Diante deste dilema, a campanha deste ano está usando como estratégia de sensibilização, a fábula do beija-flor que ensina o poder da determinação frente aos obstáculos da vida. Você conhece essa história? A nível de reflexão, como achei interessante a associação do tema à fábula, vou transcrevê-la para que, aqueles que não a conhecem, possam compreendê-la, ok? Então, vamos lá!

    Existe uma falsa ideia de que os recursos hídricos são infinitos, mas como comentei no início deste post, menos de 3 % da água do mundo é doce, da qual mais de 99% apresenta-se congelada nas regiões polares ou em rios e lagos subterrâneos, o que dificulta sua utilização pelo Homem. Estamos tão habituados à presença da água, que só damos conta da sua importância quando ela nos faz falta, mas isso precisa mudar. Além de ser o principal constituinte do corpo humano e essencial para o pleno funcionamento do organismo, a água é um elemento essencial para a sobrevivência de animais e vegetais na Terra, fazendo parte de inúmeras atividades dos seres humanos. 

    A falta de água é uma ameaça, uma vez que ela é a fonte de vida. Preservar os recursos hídricos é preservar a nossa existência. A conscientização em relação à educação ambiental e atitudes simples do dia-a-dia fazem total diferença. Para isso é fundamental comprometermo-nos a usar a água com moderação, fazendo a nossa parte para evitarmos a contaminação dos ambientes aquáticos como, por exemplo, não lançando lixos nos lagos, rios, mares e oceanos, uma vez que o equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos.

    No cenário de crise de água e saneamento que enfrentamos atualmente, se cada um de nós reduzirmos um a dois minutos do tempo de banho diário, três a seis litros de água serão economizados. Se multiplicarmos este volume pelo número de habitantes de uma cidade, percebe-se que os resultados trazem impactos consideravelmente positivos. Enquanto cidadãos, ao firmamos um compromisso pessoal com o uso consciente dos recursos hídricos, estaremos ajudando a solucionar a crise sem precedentes da água. Como vimos na fábula, se cada um fizer a sua parte, por menor que seja, no final poderemos fazer uma enorme diferença nesta luta que é de todos nós. Afinal, pequenos gestos como a gota a gota do beija-flor, tendem a gerar excelentes resultados!!! 

    ~ Bia ~

  • Mãe de gêmeos especiais

    Fonte: Metrópoles

    Quando o primeiro ultrassom aponta a chegada de filhos gêmeos, certamente o universo familiar se inunda de alegria, sonhos e até mesmo, de medos. Afinal, criar um filho não é tarefa fácil, imagina o trabalho e tempo direcionados à criação e cuidados com dois ou mais bebês ao mesmo tempo? Será que tudo vem realmente em dobro? Embarcando na onda do dia mundial dos gêmeos, que é celebrado anualmente no dia 18 de março, não vou falar especificamente sobre irmãos gêmeos, mas de duas mães que tiveram filhas gêmeas e ambas, portadoras de necessidades especiais. 

    Para começar, é preciso dizer que quando escrevi o post Meio litro de lágrimas, narrando como foi “impactante” descobrir que, além de uma deficiência, tivemos que “driblar” mais uma outra deficiência que apareceu na vida da Dani e que, apesar da nossa dor e do meu profundo sentimento de culpa, não poderíamos ficar chorando pelo “leite derramado”, pois existem pessoas que estão passando por situações muito mais complicadas, como o caso da Aya Kito que, diagnosticada com degeneração espinocerebelar aos 15 anos, teve que enfrentar a dura e cruel realidade de, em sã consciência, ver seu corpo sendo dizimado, até não conseguir mais comer, andar ou conversar, falecendo ao 25 anos, na ocasião acabei não comentando que também tem mães que, num misto de imensa alegria mas de muita preocupação, dão à luz não só a um, mas a dois ou até mais filhos especiais. Se, por natureza, sabemos que não é fácil criar um filho, se ele for especial, é fato que vai exigir mais cuidados. Dois filhos gêmeos especiais, então, é algo inimaginável para muita gente, não é mesmo?

    Mas não é que tem gêmeos cegos, autistas, surdos, com Síndrome de Down e também com paralisia cerebral? Difícil acreditar mas tem!!! Estes dias atrás fiquei muito emocionada ao ler um artigo do blog Crianças Especiais que conta como Ayla Martins, mesmo com tantas dificuldades financeiras, mergulhou de “cabeça” num novo mundo cheio de dúvidas, medos e incertezas, ao descobrir que as suas filhas, gêmeas idênticas, Manuella e Gabriella, tinham paralisia cerebral e Síndrome de West, que é uma epilepsia de difícil controle. Apesar de aceitar e compreender que as meninas iriam precisar de infindáveis cuidados, carinho e do amor incondicional dos pais por toda a vida, muito mais do que qualquer outra criança dita “normal”, ela diz que o que mais “doeu” foi ter que lutar por acessibilidade e contra o preconceito, para dar o mínimo de dignidade possível para suas filhas.   

    Porém, mesmo diante de tantas intempéries, Ayla conta que suas filhas fizeram com que ela e seu marido Tiago enxergassem a vida com outros olhos, acreditando nas coisas boas da vida e declarando, inclusive, que mesmo enfrentando tantos infortúnios, suas filhas são felizes. Apesar de não pronunciarem uma única palavra, elas conseguem transmitir coisas incríveis com seus expressivos olhos de “jabuticaba” e seus sorrisos abertos e cheios de inocência. Ela agradece a Deus todos os dias pela vida e saúde das filhas e por serem assim, exatamente como elas são, pois o que pode parecer supérfluo para algumas famílias em relação ao desenvolvimento dos filhos, para ela e seu marido, cada conquista é uma grande vitória. Lindo depoimento dessa mãe que, nadando contra a correnteza, está sempre de bem com a vida, “fazendo das tripas coração” para oferecer uma vida digna para suas princesinhas Manu e Gabi, vocês não acham?

    Pois é! Mas agora vou falar de uma outra mãe que teve duas filhas gêmeas surdas e que, de certo modo, teve uma expressiva repercussão na minha vida. No post Resultado da Audiometria: seu filho é surdo (a) comentei que para nós, pais ouvintes que não têm a menor noção do que é ter um filho surdo, ao depararmos com o resultado da audiometria, diagnosticando que nosso filho tem algum grau de surdez, ficamos “sem chão” diante desta nova realidade que se apresenta à nossa frente. Na época em que ficamos sabendo que a Dani era surda, nós morávamos em São Paulo e eu me recordo claramente que quando fui passar as férias na casa dos meus pais, em Maringá, ainda no período de “luto”, como define a psicóloga Larissa Vendrusculo, enfatizando que a descoberta de uma deficiência traz uma ideia de morte não real, mas simbólica, ou seja, morte dos planos, sonhos e projetos que se tinha para a criança, meu pai, na tentativa de me confortar, contou-me que sua colega de trabalho havia dado à luz a trigêmeos, sendo um menino e duas meninas e que elas eram surdas. Saber que tinha uma mãe que estava numa situação duplamente “pior” que a minha, me deixou um pouquinho mais conformada mas, ainda assim, precisava de tempo para “digerir” uma nova situação na minha vida. 

    Ao saber que em Maringá havia uma escola oralista (atualmente escola bilíngue) para crianças com deficiência auditiva, à procura por uma qualidade de ensino que fosse favorável à Dani, acabei voltando para a minha cidade natal e meu pai, sempre que surgia uma oportunidade, no intuito de me acalentar ou incentivar, gostava de me contar do empenho da sua colega Clélia em relação às suas duas filhas gêmeas surdas. À medida que o tempo foi passando, ao conviver com minhas filhas e observar como a Dani exigia atenção e cuidados especiais, meu pai passou a admirar ainda mais a Clélia que, assim como ele, também era professora de Matemática na Universidade Estadual de Maringá. Além de lecionar, ela tinha que dar conta, não só das duas crianças surdas, mas de outros 3 filhos pequenos, sendo um deles da mesma idade das meninas, pois como citei um pouco antes, eles eram trigêmeos. 

    Não tenho muita noção de como meu pai atuou profissionalmente, pois ele era uma pessoa muito reservada e na sua discrição, não tinha o costume de falar sobre seus colegas de trabalho, abrindo uma única exceção para tecer elogios à mulher “guerreira” Clélia, que era a sua fonte inspiradora para me “elucidar” que tinha mães enfrentando “em dobro” as mesmas dificuldades que, porventura, eu tivesse que encarar. 

    Dani com a Marília

    Alguns anos depois, Dani conheceu a Marília e a Beatriz, as filhas gêmeas da professora Clélia. Participando, atualmente, da comunidade surda de Maringá, Dani e Marília são, por enquanto, as únicas “doutoras” surdas da cidade. Pai… talvez nem em sonho você pudesse imaginar que a sua neta Dani e a Marília dariam continuidade à tão nobre missão de ensinar que, tanto você como a professora Clélia, abraçaram incansavelmente durante décadas e mais décadas. E quem diria que um dia, lá no futuro, elas seriam amigas, hein, meu querido pai?

    Professora Clélia… talvez você não saiba, mas não foram poucas as vezes que meu pai, nutrindo imensa admiração pela sua família, se inspirou na sua garra e determinação, para me dar forças na minha incessante busca por uma vida digna para a Dani. Nesta data, em que o mundo comemora o dia dos gêmeos, é com imensa emoção que presto a minha sincera homenagem às mães que, assim como você, Clélia Maria Ignatius Nogueira, Ayla Martins, Vanessa de Paiva, mãe das gêmeas Clara e Alice, portadores de síndrome de Down, Rose Barossi, mãe dos gêmeos autistas Gigi e Rafa, Fabiana Clarck, mãe adotiva dos gêmeos Raíssa e Benjamin que nasceram com paralisia cerebral e tantas outras mães, têm filhos gêmeos especiais.

    Vocês realmente sabem o que é ter que, em dose dupla, mover “mundos e fundos” a que todas nós, mães de crianças especiais, nos empenhamos diariamente em prol da inclusão social e, de quebra, insistindo e persistindo pelo direito de ir e vir como cidadãos. No arbitrário “show da vida”, vocês nos contemplam com verdadeiras lições de superação e cientes de que “o essencial é invisível aos olhos”, conforme sacramentou o escritor Antoine de Saint-Exupéry, não se prendem às superficialidades, valorizando a beleza interior, que toca lá no fundo do coração. Vocês merecem, mais do que ninguém, aplausos e mais aplausos da platéia mundial. “Tiro o meu chapéu” para vocês. Parabéns!!!

    ~ Bia ~